Por que pensar como um product manager pode mudar a forma como você trabalha
O problema: fomos treinados para executar, não para questionar.
O problema: fomos treinados para executar, não para questionar
A faculdade de direito e os escritórios te treinaram para ser reativo. Chega uma demanda, você executa. Chega um contrato, você revisa. Chega uma pergunta, você responde.
Isso não é culpa sua. É como o sistema funciona. Mas esse modelo é quebrado.
As empresas não precisam mais de advogados que apenas "fazem o que pedem". Elas precisam de pessoas que entendam o objetivo final antes de sair executando. Que questionem se a tarefa faz sentido. Que proponham caminhos que ninguém pensou.
Esse é exatamente o trabalho de um Product Manager (PM).
O que um PM faz (e por que isso importa pra você)
Product Manager não é programador. PM é a pessoa que define problemas, prioriza o que resolver primeiro, testa hipóteses e mede impacto.
Pensa comigo: você não está fazendo exatamente isso (ou deveria estar) quando desenha um fluxo de compliance? Quando prioriza quais contratos automatizar? Quando decide qual reclamação de consumidor atacar primeiro?
A diferença é que PMs são treinados para questionar tudo antes de executar.
Advogados são treinados para executar sem questionar.
A mudança de mentalidade: de executor para solucionador
Deixa eu te dar um exemplo real.
O diretor comercial chega no jurídico e diz: "Precisamos cortar o contrato comercial do produto X pela metade"
O advogado executor pega o contrato e começa a cortar cláusulas.
O advogado com mentalidade de PM para e pergunta: "Qual é o objetivo final aqui? É fechar mais rápido? É reduzir objeções do cliente? É simplificar a leitura?"
E aí vem a pergunta mágica: "Será que a gente sequer precisa do contrato?"
Talvez um termo de aceite digital resolva. Talvez um clique no checkout seja suficiente. Talvez o problema não seja o tamanho do contrato, mas o momento em que ele aparece na jornada de compra.
Você só consegue enxergar essas possibilidades se souber o objetivo final. E você só sabe o objetivo final se perguntar antes de executar.
Parece simples. Mas pare e pense qual foi a última vez que você tentou entender o contexto e o objetivo final de um projeto ou demanda na qual estava inserido.
Os agentes da Sofira automatizam o fluxo de Procon e canais de consumidor — da captura ao protocolo, com causa-raiz marcada.
O Playbook: como desenvolver essa mentalidade
Passo 1: Nunca comece pela tarefa
Toda vez que alguém te pedir algo, sua primeira reação deve ser perguntar: "Qual problema estamos tentando resolver?"
Não é ser chato. É ser estratégico. A pessoa que está pedindo muitas vezes não sabe que existem outros caminhos possíveis.
O erro que todos nós cometemos:
Quando recebemos uma demanda específica, nosso cérebro assume: "Se me pediram a opção B, é porque essa pessoa já avaliou A, B e C e escolheu B." Raramente consideramos a hipótese de que a pessoa desconhece que A e C existem. Ela pediu B porque era a única que conhecia.
Exemplo real:
Quando eu trabalhava com fundos de investimento, tínhamos uma estrutura complexa de empresas em Delaware e em Cayman.
Um dia meu CEO chegou pedindo pra criar uma LLC em Delaware. É muito simples e rápido criar uma LLC. Mas tem um custo anual alto de manutenção. Será que a gente precisava mesmo de uma empresa adicional?
Perguntei: "Ok. Pra que precisamos de mais uma LLC? Qual o objetivo aqui?"
CEO: "Temos um ativo novo e precisamos segregar a participação dele apenas para alguns investidores".
Propus usarmos uma empresa que já estava aberta e apenas alterar o contrato social com regras de segregação de ativos. Cumpria o mesmo objetivo, custava menos, e era mais rápido. Meu CEO não sabia que essa opção existia.
Se eu tivesse só executado, teríamos mais uma empresa pra manter, mais custo, mais complexidade. Tudo desnecessário.
Seu papel é descobrir o objetivo final e garantir que a pessoa saiba que existem outras opções antes de você começar a executar.
Passo 2: Use o mini-framework do PM
Uma grande parte do trabalho de um Product Manager é testar hipóteses para descobrir a melhor forma de chegar em um objetivo. PM não é a pessoa que já sabe a resposta — é a pessoa que sabe como descobrir a resposta.
E o método é sempre o mesmo ciclo:
PROBLEMA → HIPÓTESE → TESTE → APRENDIZADO
Parece simples, mas muda tudo. Porque te obriga a admitir que você não sabe a solução de cara — e que precisa validar antes de sair executando.
Exemplo real:
Imagine que você é advogada de uma empresa de e-commerce e as reclamações no Procon aumentaram 40% nos últimos 3 meses. Seu gestor pede pra "resolver isso".
O advogado executor começa a responder as reclamações mais rápido, tenta negociar melhor, talvez contrate mais gente pro time.
O advogado com mentalidade de PM para e aplica o framework:
Diagrama do framework PROBLEMA → HIPÓTESE → TESTE → APRENDIZADO aplicado ao aumento de 40% nas reclamações de Procon. Inserir aqui a imagem original do artigo.
Agora você tem munição pra uma conversa diferente. Não é mais "precisamos responder mais rápido". É "precisamos melhorar a resolução no primeiro contato do SAC, isso vai reduzir Procon na origem".
Por que isso importa:
Sem esse processo, você fica no escuro:
- Pode gastar meses otimizando a coisa errada.
- Pode contratar gente quando o problema é processo.
- Pode automatizar uma etapa que nem deveria existir.
Passo 3: Pergunte "por quê" até chegar na raiz
Essa é uma técnica clássica de PM chamada "5 Whys". A ideia é simples: quando você aceita a primeira resposta, geralmente está tratando sintoma, não causa.
Exemplo real:
Sua empresa está tendo muitas reclamações no Procon sobre atraso na entrega. O diretor de operações pede pro jurídico "criar uma cláusula de prazo mais flexível no contrato".
Você poderia simplesmente redigir a cláusula. Mas resolve perguntar:
— "Por que precisamos de prazo mais flexível?"
— "Porque estamos levando mais tempo pra entregar do que o prometido."
— "Por que estamos demorando mais?"
— "Porque a transportadora está atrasando."
— "Por que a transportadora está atrasando?"
— "Porque a gente só despacha quando junta um lote mínimo pra baratear o frete."
— "Por que precisa de lote mínimo?"
— "Porque o contrato com a transportadora exige volume mínimo por envio."
Agora você chegou no problema real: o contrato com a transportadora. A solução pode ser renegociar esse contrato, trocar de transportadora, ou criar uma regra de despacho diferente pra pedidos urgentes.
Nenhuma cláusula de "prazo flexível" ia resolver isso. Ia só transferir o problema pro cliente e continuar gerando reclamação.
Na prática:
Você não precisa fazer exatamente cinco perguntas. Às vezes são três, às vezes são sete. O ponto é não parar na primeira resposta. Cada "por quê" te leva uma camada mais fundo.
Geralmente a solução real está duas ou três camadas abaixo do que te pediram.
Passo 4: Meça antes e depois
Você não precisa de dashboard sofisticado. Precisa de perguntas simples:
- Quantas horas leva hoje? Quantas deveria levar?
- Quantos contratos passam por mim por mês?
- Qual % das reclamações é recorrente?
- Quanto tempo entre a demanda chegar e eu entregar?
Se você não mede, não sabe se melhorou. E se não sabe se melhorou, não consegue mostrar valor.
Para se aprofundar: livros que recomendo
Se você quer ir mais fundo nessa mentalidade, esses livros são um bom começo:
- "The Mom Test" - Rob Fitzpatrick
- Curtinho (120 páginas), super prático
- Ensina a fazer as perguntas certas pra descobrir o que as pessoas realmente precisam (vs. o que elas dizem que precisam)
- É exatamente sobre a mentalidade de questionar e validar antes de executar
- Usado em Harvard, MIT, e em empresas como Shopify
- "Sprint" - Jake Knapp (Google Ventures)
- Processo de 5 dias pra testar ideias antes de investir tempo e dinheiro
- Passo a passo detalhado, fácil de seguir
- Ensina a prototipar e validar rápido — exatamente o ciclo problema → hipótese → teste → aprendizado
- Best-seller do NYT, testado em mais de 200 startups
- "Thinking in Bets" - Annie Duke
- Leve, não é técnico, e ensina a tomar decisões melhores com informação incompleta
- Escrito por uma jogadora de poker com background em psicologia cognitiva
- Muito aplicável pro dia a dia de qualquer profissional