IA aplicada ao Direito

Como construir um "AI mindset"

O método que uso pra instaurar cultura de IA na minha equipe.

PHPriscila HolandaCEO · Sofira ·7 min

O exercício inicial

Na primeira semana de uma pessoa nova na Sofira, eu sento do lado dela pra trabalhar junto. Literalmente. A gente abre as tarefas do dia e começa.

Em algum momento, ela vai sugerir uma estratégia, um plano, um primeiro rascunho de alguma coisa. E eu pergunto: "Ok, mas você contou isso pra algum modelo de LLM e pediu pra ele ser seu advogado do diabo? Pediu pra apontar falhas, sugestões, pontos cegos?"

Se a resposta for não, o trabalho ainda não está completo.

Semana passada uma pessoa me disse: "Eu achei que usava IA bastante, mas estava errada."

O erro que quase todo mundo comete

A maioria dos advogados que "usa IA" está operando na camada mais superficial: correção de gramática, melhoria de redação, resumo de documento. Isso não é AI Mindset. Isso é usar IA como um corretor ortográfico caro.

A maior alavancagem não está em polir o resultado final. Está em usar IA pra construir o raciocínio que leva até ele.

AI Mindset é fazer da IA uma extensão do seu cérebro.

Mas isso só é possível se você souber usar IA nas camadas certas.

Como pensar em camadas

A maioria das pessoas pede ajuda pra IA no ponto onde está travada. O problema é que esse ponto geralmente é superficial demais.

O exercício mental é sempre voltar uma camada. E depois outra. Até chegar na decisão estratégica que define todo o resto.

Como fazer isso na prática:

Antes de pedir qualquer coisa pra IA, faça essas perguntas:

  • Qual é a tarefa que estou prestes a pedir?
  • Qual é a camada anterior a essa tarefa? (O que precisou ser decidido pra essa tarefa existir?)
  • E a camada anterior a essa?
  • Onde está a decisão estratégica que, se mudar, muda todo o resto?

Um exemplo concreto de como a gente faz isso na Sofira

A gente precisava criar uma estratégia de outbound (emails pra potenciais clientes apresentando a Sofira).

A maioria das pessoas iria direto no ChatGPT e pediria: "me ajuda a escrever um email de prospecção." Isso é a camada mais superficial.

Veja como a gente fez, voltando camadas:

Camada 1 — O prompt antes do prompt. Antes de pedir qualquer coisa, eu fui no GPT (que guarda memória das conversas anteriores) e pedi pra ele me ajudar a montar o contexto que eu precisaria incluir em qualquer prompt sobre esse projeto. Produto, mercado, público-alvo, diferenciais. Ou seja: pedi pra IA me ajudar a criar o input que eu daria pra IA.

Camada 2 — O prompt antes da estratégia. Com esse contexto pronto, abri um novo chat e pedi pra IA me ajudar a criar o melhor prompt pra montar uma estratégia de outbound. Perceba o que eu fiz aqui: eu não pedi a estratégia. Pedi ajuda pra criar o prompt que ia gerar a estratégia. É uma camada antes da camada.

Camada 3 — A estratégia. Aí sim, com o prompt certo em mãos, pedi pra IA criar a estratégia. Mas não parei aí: trouxemos documentos, referências de livros, frameworks de outbound que funcionam. Pedimos pra IA integrar esse conhecimento externo ao nosso contexto específico e refinar a estratégia.

Camada 4 — Aí sim, o email. Só depois de toda essa base construída é que pedimos ajuda pra escrever os emails. E aí o resultado foi incomparavelmente melhor do que se tivéssemos começado por aí.

Esse processo se aplica pra qualquer coisa. Trabalho jurídico, comercial, operacional, estratégico. O segredo é usar a IA como um segundo cérebro de verdade — não pra executar suas tarefas, mas pra pensar junto com você. Pra te ajudar a decidir como pensar. Como estruturar. Como abordar.

Treine esse músculo. Toda vez que for pedir algo pra IA, pause e pergunte: "Essa é a camada certa ou eu deveria estar uma camada antes?"

IA como extensão do cérebro do seu time jurídico

A Sofira automatiza o fluxo de Procon e canais de consumidor — da captura ao protocolo — para o time focar no que exige julgamento.

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Como desenvolver AI Mindset

1. Working sessions

Nas primeiras semanas de alguém no time, eu sento do lado e trabalho junto.

O objetivo é criar o músculo. Fazer a pessoa internalizar que tudo passa por uma IA: brainstorming, desenvolvimento, validação.

E não é só perguntar se usou, é mostrar como eu usaria. Abrir o chat, construir o prompt junto, discutir o output, refinar junto. A pessoa precisa ver pra aprender.

2. Aprender prompt engineering de verdade

Muita gente desiste da IA porque teve resultados ruins. Mas o problema quase nunca é a IA — é não saber perguntar.

Erros mais comuns:

2.1. Usar o modelo errado. Cada modelo é melhor em algo específico, e você só descobre isso testando a mesma tarefa em modelos diferentes. Na minha experiência: Gemini escreve textos jurídicos melhor, GPT pensa estratégias melhor, Claude é superior pra código e textos criativos. Além disso, você precisa usar a versão certa dentro de cada modelo — e nunca a versão gratuita. A qualidade é inferior.

2.2. Prompts vagos. "Me ajuda com esse contrato" não funciona. "Analise esse contrato de prestação de serviços sob a perspectiva do contratante, identifique 5 riscos principais e sugira cláusulas alternativas pra mitigar cada um" funciona.

2.3. Não usar role play. Começar com "Você é um advogado especialista em direito contratual com 20 anos de experiência" muda completamente a qualidade do output.

2.4. Ignorar cadeia de pensamento. Pedir "pense passo a passo antes de responder" ou "primeiro liste os pontos relevantes, depois analise cada um" força a IA a raciocinar melhor.

2.5. Contexto insuficiente. A IA não sabe nada sobre a situação. Quanto mais contexto você der, melhor o resultado.

2.6. Desistir no primeiro output. IA é iterativa. O primeiro resultado quase nunca é o final. Você precisa refinar, pedir ajustes, desafiar, pedir alternativas.

3. Criar infraestrutura de contexto

Na Sofira, nossas tarefas já têm contextos pré-produzidos. Pras tarefas mais repetitivas, criamos projetos dentro das ferramentas com instruções e contextos prontos. Isso elimina atrito e garante consistência — ninguém precisa explicar o básico do zero toda vez.

4. Dar acesso irrestrito às ferramentas

Todo mundo do time tem acesso aos planos pagos do GPT e Gemini.

A gente compartilha projetos e trabalha junto dentro das ferramentas. Parece óbvio, mas muita empresa quer "cultura de IA" sem investir em acesso.

Quando você remove a barreira, o uso aumenta naturalmente.

5. Criar accountability

Se você lidera uma equipe: nas próximas duas semanas, antes de qualquer entrega, pergunte "como você usou IA nisso?" e peça pra pessoa te mostrar o chat.

Não precisa ser fiscalização. É curiosidade genuína. E força a pessoa a pensar antes de cada tarefa: "vou ter que mostrar como usei, então é melhor usar direito."

O filtro

A pergunta que me faço sobre cada pessoa do time: se ela estivesse sozinha, sem eu do lado, ela iria automaticamente recorrer à IA antes de começar qualquer tarefa — e na camada certa?

Se sim, o treinamento funcionou. Se não, a gente continua treinando junto.

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